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Quinta-feira, Junho 30, 2005
despachado
00:57
por KC
O TRIUNFO DE BLOGGULK
(Chronicles of the Resistence - 1)
Tens um smart e um telemóvel 3G com câmara digital? E um PDA, tens? E lá em casa, tens um plasma? Um PC, um sistema de home-cinema? Não? E votas onde, nas autárquicas? No Isaltino? No Ferreira Torres? Na Elsa Raposo? No Carrilho? Na Fátima Felgueiras? E és o quê? Um daqueles que pode reformar-se aos 60? Ou dos que não paga impostos?
Desorientados, os habitantes do rectângulo de tecto envidraçado não sabiam, em Julho de 2005, responder ou, pior, lidar com estas e muitas outras dúvidas. A "silly season" não esperou, nesse ano de 2005, por Agosto. Chegou bem mais cedo. Na verdade, ela há muito que estava instalada.
Nesse início de Julho, prédios explodiam no centro do Porto matando residentes. Avionetas chocavam com automóveis, matando tripulantes e passageiros. Empresas subiam, sem motivo aparente, na Bolsa de Lisboa. Outras saíam do rectângulo ou anunciavam reduções de efectivos. Polícias, militares da armada e funcionários públicos faziam manifestações contra o governo. A construção de uma central nuclear no rectângulo surgia como uma probabilidade. Um investimento, dizia-se, na produção de energia, replicando afinal algo que já fora tentado nos tempos da Ditadura.
Nesse início de Julho, os restaurantes da capital estavam cheios. Os restaurantes junto às praias serviam peixe grelhado regado a garrafas de Moet & Chandon. No centro da capital, um dos mais antigos bairros exibia o grau máximo da toxicodependência e o dramático cortejo de gente perdida para o Mundo.
Nesse início de Julho, as bancas enchiam-se de publicações indigentes e tornavam-se lojas dos trezentos. Com os jornais ou as revistas era possível não só receber a inevitável injecção entorpecente cor-de-rosa, mas também levar para casa pulseiras de borracha, ténis, facas, garfos, pratos, colares, túnicas, toalhas, ferramentas, coletes reflectores, porta-chaves, rádios a pilhas.
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Terça-feira, Junho 28, 2005
despachado
23:58
por KC
DOIS ANOS NA BLOGOSFERA
O TRIUNFO DE BLOGGULK
Crónicas de um aniversariante
Dois anos na blogosfera é muito tempo. É muito tempo e é, felizmente, um triunfo.
Não pelas visitas registadas no sitemeter, claro, mas apenas pela simples verificação de um facto. Bloggulk vive desde 29 de Junho de 2003 e mantém hoje a vitalidade do primeiro dia.
Por vezes mais reservado, conceda-se.
Com maiores períodos de silêncio, seguramente. Os processos de crescimento desmentem, afinal, a padronização.
Em dois anos, Bloggulk acumulou cerca de 600 posts, quase à extraordinária média de um por dia. Nem o sexo é tão assíduo, vamos convir. Vejamos a declaração de princípios:
O fenómeno blog é uma mania como outra qualquer. Um movimento, se quisermos.De repente, e se calhar felizmente, tornou-se mais importante do que o chat em tempo real, os mirc's e quejandos, com aquelas patetices a correr que ninguém percebe; ou as salas privadas, onde perpassa a infeliz utopia do sexo virtual. A blogosfera, como alguns dos que rasgaram estes horizontes pomposamente lhe chamam, mais não é do que uma imensa multidão à procura de fazer-se ouvir. Ou melhor, ler. Em teoria, este é um óptimo princípio. Eu tenho algo para dizer e escrevo. O outro lê. E escreve comentários. A reciprocidade, o "feedback", podem ser fantásticos. Mas há qui uma questão mal resolvida. Como fazer que o outro nos leia, quando há demasiados outros à procura de quem os leia? E comente. É este, muito provavelmente, o único e verdadeiro desafio da chamada blogosfera. Interessante, sem dúvida, mas demasiado absorvente...
Dois anos depois é curioso verificar que nada mudou.
Enfim, terá mudado o Mundo, acentuando apenas o caminhar no fio da navalha. Mudou o Mundo. E com ele mudou, obviamente, o país, o rectângulo de tecto envidraçado. O espectáculo fornecido ao resto da Europa é agora assombroso. Aqui, no sul do continente, porta de entrada para toneladas de cocaína, haxixe ou heroína, a capacidade de endividamento piorou. Portugal não ganha para o que gasta. Ponto.
Sócrates é o terceiro líder de governo desde 29 de Junho de 2003 num país que é assim uma espécie de fornecedor oficial de senadores. Temos um na UE. E outro nos Refugiados. Como consolação há que conceder que é pouco. É uma ridicularia.
A incoerência de Bloggulk manteve-se inalterada ao longo destes dois anos. Por isso não cedeu nunca um milímetro na denúncia da mancha cor-de-rosa. Hoje com níveis de infiltração porventura irreversíveis. Com todas as consequências que, afinal, conhecemos.
Falhar a festa do vómito a bordo de um barco nas águas territoriais algarvias pode ser um drama. Até os diários ditos de referência foram obrigados a render-se. Quem não tem um espacito para o "social", quem não mostra festas, quem não fala de famosos só pode ser excêntrico.
O país tem um problema de "socialite aguda". Agravado pelas injecções das tvs aeriais, pela existência de tablóides como o "24 Horas". Expoente único, aliás, de um estilo "tuga", boçal, chico esperto, barrasco, ordinário, mas, claro, muito senhor do seu nariz e sempre pronto a clamar verticalidade e seriedade. A este fenómeno, campeão de audiências na casa de banho, juntam-se as dezenas de revistas que alimentam e se alimentam dos famosos, esse conceito recorrente e tão patético.
O rectângulo de tecto envidraçado não consegue sequer ouvir-se a pensar.
Porque se o conseguisse já teria retirado conclusões. E definido um rumo que não pode ser este.
Dois anos é muito tempo. E é um triunfo. Também porque já começou a caminhada para o terceiro aniversário.
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